Aprovado

Depoimento de Hudson Noronha

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Olá amigos! Vou contar a história de um MILAGRE!

Sempre tive o sonho de fazer medicina, mas a vida me fez enterrar esse sonho durante muitos anos. Todo ano é sempre a mesma história: O curso de medicina da UFAM tem pouquíssimos amazonenses matriculados. Já era assim na época do vestibular tradicional e só ficou mais difícil com o ENEM, e nesse ano de 2013 foi notícia em todos os jornais de Manaus: Nenhum amazonense na Medicina da UFAM (http://www.d24am.com/noticias/amazonas/estudantes-do-amazonas-ficam-de-fora-do-curso-de-medicina-da-ufam/80705 ). Creio que não somos menos inteligentes do que o resto do país, mas o ensino aqui, mesmo nas escolas particulares, é fraco.

Terminei o ensino médio no ano de 2002 em uma escola pública de Manaus (Esc. Sólon de Lucena), e como de costume em escolas públicas foi fraquíssimo. No 1º ano as aulas foram interrompidas em outubro, pois a escola estava em péssimas condições e parou pra reforma, e o 2º ano só começou em julho do ano seguinte, não tivemos aulas compensadas e as aulas terminaram normalmente em dezembro como se nada tivesse acontecido. O 3º ano foi “normal”, os livros chegaram atrasados, não éramos exigidos em nada na escola. Em casa meus pais nunca ligaram muito pra estudos. Meu pai é filho de nordestinos que vieram pra Manaus fugindo da seca no sertão, minha mãe, filha de ribeirinhos no interior do amazonas e sempre se esforçaram muito pra trabalhar e sustentar eu e meus irmãos, mas nunca nos incentivaram a fazer uma faculdade, e quando me formei, com 17 anos comecei a trabalhar de auxiliar de pedreiro e assim fiquei por 1 ano, até ser confrontado novamente com meu sonho. Meu tio conseguiu um emprego pra mim como maqueiro de ambulância e em 2004 comecei a trabalhar com remoção de pacientes e tive certeza que era aquilo que queria! Trabalhar na área da saúde, cuidar de pessoas.

Não ganhava o suficiente pra pagar uma faculdade particular e meus pais não tinham condições pra me ajudar, e sempre dizia pra mim mesmo que não adiantaria fazer vestibular para as federais pois meu ensino médio foi fraco demais e não teria chance contra aqueles que estudaram em escola particular, faziam cursinho, e etc. Os anos foram passando, do sonho de fazer medicina nem lembrava mais, meu objetivo era apenas fazer um curso superior, qualquer um. Comecei a cursar o curso de Letras a distância na ULBRA, pois nessa modalidade os preços eram menores. Fiquei um semestre apenas depois não consegui mais pagar e tive que sair. A essa altura já era casado e tinha filho e as necessidades do dia-a-dia não deixavam sobrar dinheiro pra investir no meu futuro.
Ainda trabalhava com meu tio, não mais nas ambulâncias, mas em uma drogaria, e depois de insistir um pouco ele aceitou pagar uma faculdade pra mim. Em 2011 comecei novamente, o curso era o de Farmácia. Me esforcei como nunca e tentava não desperdiçar essa oportunidade. Compensava o meu ensino médio ruim estudando mais, principalmente as matérias de química e biologia que eram muito exigidas lá (mal sabia que seria muito útil). As coisas não iam muito bem na drogaria e sabia que mais cedo ou mais tarde meu tio não teria mais condições de continuar pagando a mensalidade. Sempre ouvia falar do ENEM, que não privilegiava só a “decoreba” e quis fazer com o único objetivo de tentar uma bolsa do PROUNI e não depender de mais ninguém pra custear minha faculdade.
Não tinha tempo de estudar pro ENEM, trabalhava de dia e estudava a noite, e apesar de ser particular, a faculdade exigia muito, ainda assim arranjava tempo durante o meu dia pra ver vídeos, ler, e ler muito. Os dias foram passando, as coisas na drogaria não melhoravam, e cada vez tinha mais certeza que ia ter que trancar a faculdade final do ano e isso me dava mais força pra estudar e conseguir nota suficiente pra uma bolsa do governo.

Chegou o dia da prova, fiz com muita dificuldade, nos dois dias fui um dos últimos a sair da sala. Quando saiu o gabarito fui conferir e tinha acertado 148 questões. Fiquei assustado! Quando saiu o resultado minha média geral era 737. Comecei a pesquisar a nota de corte dos anos passados pra MED e a esperança de realizar meu sonho voltou, sabia que tinha chance, até porque me encaixava na lei de cotas e esse seria o 1º ano que a UFAM aceitaria cotas. Quando abriu o SISU, devido aos pesos minha média pra medicina na UFAM foi pra 716. Daí pra frente foi aquela luta, a cada dia a nota de corte pra MED subia mais. Com essa nota entraria em qualquer Engenharia da UFAM, Direito, Odontologia, mas eu queria Medicina e no último dia eu era o 15º de 4 vagas pra cotistas, novamente meu sonho foi ficando distante. Decidi colocar minha segunda opção Farmácia e aguardar as chamadas seguintes pra MED, fiquei em 2º na ampla concorrência pra Farmácia e estava feliz mas ainda havia esperança. Quando saiu a primeira chamada pra lista de espera não havia mais vagas de cotas pra MED. Respirei fundo e aceitei. Não deu.

Por curiosidade, fui ver a 2º chamada da lista de espera e apareceu uma vaga. Foram chamados 5 candidatos. Eu não estava na lista mas sabia que se ninguém fosse eu estaria na próxima lista. Então no dia 10, lá foi eu pra UFAM “torcer” pra ninguém aparecer, e realmente não apareceram. Ali novamente meu sonho foi ficando mais perto. Fui pra casa e comecei a procurar todos os documentos. Falei pros meus pais que estava com muitas chances de entrar pra medicina na UFAM, a reação foi tipo: “Ah! Legal”. Fiquei meio triste pela reação deles e no dia da matrícula, lá estava eu sozinho, pra ser talvez o 1º amazonense matriculado na turma 91 de MED da UFAM. Na espera no auditório conheci algumas senhoras aguardando para matrícula em serviço social e pedagogia e uma moça pra zootecnia. Quando o painel eletrônico leu meu nome, aquelas 7 ou 8 pessoas começaram a gritar e aplaudir… Esse foi o momento mais emocionante pra mim, mesmo eu estando sozinho Deus colocou pessoas pra se alegrarem com a minha alegria, e todas as atendentes nas mesas que já me conheciam de eu ir em outras chamadas me deram parabéns e quando desci recebi um abraço de uma senhora de uns 50 anos que aguardava pra fazer sua matrícula em pedagogia. Só conseguia dizer “Obrigado Deus”.

Sei que minha história é diferente, mas a luta pra chegar até meu objetivo foi igual à de todos e foi isso que me motivou a escrever esse texto! Acredite em você mesmo, ainda que a vida tenha sido dura pra você, não se sinta inferior àqueles que puderam se preparar melhor, o que realmente vai fazer a diferença é a forma de você encarar as dificuldades e acima de tudo acreditar em você mesmo. Minha luta está só começando, vou ter que largar o emprego quando começarem as aulas, tenho medo de sofrer preconceito por ser cotista, mas tem uma frase na Bíblia que sempre me conforta: “Para Deus não haverá impossíveis” Lc. 1-37

Abraço a todos!

Hudson Noronha, aprovado em medicina na UFAM 2013-2

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